HORA DI BAI - OS CABO-VERDIANOS E A MORTE


Uma Abordagem Antropológica Através da Literatura e da Ficção

Excelente estudo de antropologia da literatura sobre a morte na ficção cabo-verdiana.

As ciências sociais caracterizam-se, cada vez mais, por uma prática e um discurso multidisciplinar e essa capacidade de integração de conceitos e métodos tem permitido a criação de interessantes e inovadores trabalhos.
Nessa linha, uma das áreas mais em foco é a da utilização da literatura nos mais variados campos, passando da história, à sociologia, à antropologia, à ciência política ou à musicologia.
Em Portugal, no entanto, a ciência tem demorado a proceder a semelhante abertura metodológica e conceptual e subsistem velhos arquétipos científicos que em nada contribuem para o desenvolvimento da mesma. No campo da reutilização da literatura são muito poucos os trabalhos que têm visto a tipografia e só por isso, este estudo da antropóloga Margarida Fernandes já merecia destaque.
A abordagem faz-se aqui através da literatura de ficção cabo-verdiana e o objectivo é encontrar no conto e no romance a relação deste povo com a morte, ou seja, fazendo da literatura fonte da antropologia e extrair dela elementos que possibilitem uma abordagem etnográfica. A literatura aqui é um documento etnográfico. O título Hora di Bai (hora da despedida) é extraído de um poema de Eugénio Tavares, traduzido em apêndice.
De início, um necessário enfoque em temas mais ligados à história, à geografia e à economia de forma a possibilitar a compreensão da realidade cabo-verdiana, da mundividência do seu povo. Só então, depois de esclarecidos as dificuldades de Cabo Verde (“Se chovia, morria-se afogado; se não chovia, morria-se de fome” Teixeira de Sousa, Xaguate, cit. pela autora, p.30) se dá relevo aos rituais de morte, tema central do livro.
Neste capítulo encontramos a morte propriamente dita, o velório, o funeral, o luto, as solidariedades e a morte na “terra longe”, fora de Cabo Verde. É neste capítulo que através de pequenos excertos literários ficamos a conhecer a realidade dos actos fúnebres, desde a saída do corpo de casa para o cemitério, à guisa, mulher carpideira por muitos dias, à tabanca que se une em redor do defunto, à solidariedade de vizinhos que ajuda nas preparações – “a morte é, para os cabo-verdianos, um acto social colectivo” (p.58).
Surpreende, ou nem tanto, a extraordinária quantidade de referências à morte na literatura cabo-verdiana mas também não é possível esquecer a realidade de quem “fugia apenas para morrer noutro lugar” (Didial, O estado impenitente da fragilidade, cit. pela autora, p.47). A diferença entre a “boa morte” e a “má morte” é indissociável dessa realidade e uma constante na ficção cabo-verdiana aqui estudada.
Em suma, estamos perante um trabalho que importa ser lido pelo seu conjunto: nem só pela literatura, nem só pela antropologia, mas pelo conjunto homogéneo e que, em última análise, muito pode contribuir para um melhor conhecimento da literatura cabo-verdiana entre nós, pois tanto pode ser lido por quem dela já tenha alguns conhecimentos e os queira aprofundar, como por quem pouco ou nada leu e pode, a partir daqui, iniciar uma leitura sistemática.
Rui Santos, Jornalista

Autor: Margarida Fernandes
Desenho da capa: Mito "Sambo"
Prefácio: José Carlos Venâncio

Editor: Nova Vega
Colecção: Palavra Africana/Ensaio
Ano de edição: 2004

(Para consulta: Bibliotecas Municipais de Lisboa - Palácio Galveia)

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